Propter nos homines, homo factus est 

Por nós homens, se fez homem.

Por que Deus se fez homem? O próprio Credo Niceno-Constantinopolitano, de onde foi tirada a jaculatória que nos acompanhará, durante o tempo natalino, nos dá a resposta: para a nossa salvação. É exatamente isso que nos dizem os autores sagrados.

São João evangelista afirma que o Pai enviou seu Filho como o Salvador do mundo (1Jo 4,14) e que este apareceu para tirar os pecados (1Jo 3,5). Afirma, ainda, que em Cristo fomos reconciliados com Deus: Foi Ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados (1Jo 4,10).

Por amor a nós, o Filho assumiu a missão de reparar o mal que ofendera a majestade infinita de Deus. Assumiu-a, porque nenhum homem, por mais santo que fosse, poderia oferecer à Justiça divina uma reparação de valor infinito.

 

Pelo pecado fomos afastados da amizade com Deus. Ficamos expostos a danação eterna, escravos da morte e do autor de todo o mal. São Paulo ensina que Deus não nos abandonou ao poder da morte, mas que enviou o Seu Filho amado para nos salvar: quando éramos pecadores, Cristo morreu por nós (Rm 5,8).

A esse respeito, são comoventes as palavras de São Gregório de Nissa: Doente, nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso nô-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador. Essas razões eram sem importância? Não eram tais que comoveriam a Deus a ponto de fazê-lo descer até nossa natureza humana para visita-la, uma vez que a humanidade se encontrava em um estado tão miserável e tão infeliz? É precisamente isso que vamos celebrar nesse Natal: um Deus que por amor aos homens se fez homem.

A Igreja, na sua milenar sabedoria litúrgica, deu-se conta de que não se poderia celebrar tão grandioso mistério sem que estivéssemos devidamente preparados, e por isso, tratou, desde o princípio, de oferecer-nos um tempo de preparação chamado Advento.

Caros filhos, eis chegado o tempo tão importante e solene que, conforme diz o Espírito Santo, é o momento favorável, o dia da salvação (cf. 2Cor 6,2), da paz e da reconciliação. É o tempo que outrora os patriarcas e profetas tão ardentemente desejaram com seus anseios e suspiros; o tempo que o justo Simeão finalmente pôde ver cheio de alegria, tempo celebrado sempre com solenidade pela Igreja, e que também deve ser constantemente vivido com fervor, louvando e agradecendo ao Pai eterno pela misericórdia que nos revelou nesse mistério (São Carlos Borromeu).

Durante quatro semanas a Igreja viverá, na sua Liturgia, uma ansiosa expectativa pela chegada do seu Salvador. Nos últimos dias, então, a ansiedade será tanta que ela começará a contá-los: 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25.

Nada pôde impedir a vinda do Salvador: nem Herodes e seu sanguinário exército, nem Augusto Cézar com todo o seu poder, nem as portas fechadas das hospedarias... Também, nos dias de hoje, nada poderá nos impedir de tê-lo como Salvador: nem as trevas da descrença, nem a cultura do descartável, nem a obscuridade que, de tempos em tempos, é sempre ameaçadoramente ativa dentro da própria Igreja, como disse Bento XVI (Mosteiro Mater Ecclesiæ, 8 de junho de 2019). Nada poderá impedir que, uma vez mais, nossa Fraternidade seja insuflada pela alegria que nasce da gruta de Belém: nem o mundanismo, que como um leão faminto ronda querendo nos devorar, nem o fascínio por uma liberdade que, no final, só nos torna escravos do prazer e do ter, nem uma “espiritualidade” pueril que nos leva a permanecer em Deus só enquanto, emocionalmente, podemos senti-lo.

Por mais estrondosas que sejam as vozes dos profetas do descartável, elas não poderão nos impedir de escutar a voz do Mensageiro de Deus que diz: Não tenhais medo: Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo; hoje, na cidade de Davi, nasceu um Salvador para vós, Cristo Senhor! Lc 2, 10-11).

Deixemo-nos contagiar pelas palavras de São Leão Magno, papa e doutor da Igreja: Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida!

Prostremo-nos, como os Sábios do Oriente, diante do Deus-Menino e ofereçamos-lhe o presente da GRATIDÃO. Gratidão pelos nossos 18 anos, pelos primeiros religiosos/as que professaram os Votos Perpétuos, pelos primeiros leigos que professaram os vínculos definitivos, pelos nossos irmãos que foram ordenados diáconos esse ano e, dentre eles, o nosso primeiro Diácono Permanente (Fábio, da missão de São Luís), pelas novas missões que foram abertas, pelo noivado do nosso Casal de Vida (Pablo e Naiara que estão na missão de Laguna e Tubarão, SC), pelo lançamento do nosso sétimo CD... Ofereçamos-lhe o presente da CARIDADE. Caridade traduzida em acolhimento aos pobres que chegam as nossas casas pedindo comida, água, roupa, banho, remédio, abrigo, etc. Caridade traduzida na luta pela garantia daqueles direitos que lhes são inerentes como alimentação, educação, saúde, trabalho, etc. Ofereçamos-lhe o presente da UNIDADE. Unidade que nos fez reconhecer que, apesar das nossas diferenças, somos todos irmãos e irmãs e que a causa que nos une é O Reino de Deus, pela qual vale a pena continuarmos unidos. Ofereçamos-lhe o presente da MATURIDADE. Maturidade que nos levou a permanecer na opção primeira mesmo com o passar dos anos, mesmo durante a noite escura dos sentidos e da alma, mesmo diante das facilidades oferecidas pelas novas possibilidades, mesmo diante da manifestação da nossa pobre e frágil humanidade. Ofereçamos-lhe o presente da MISSÃO. Missão que nos levou a lugares onde Jesus Cristo ainda precisa ser anunciado e a lugares onde já não querem ouvir nada sobre Ele; que nos levou a lugares onde a “pesca é de rede” e a outros, onde a “pesca é de anzol”; que nos levou a lugares tranquilos e a outros marcados pela violência e pelo martírio.

Gostaria de agradecer, ainda, ao Menino-Deus por dois presentes que Ele nos deu: Pelo presente que é o nosso Mosteiro. Pela vida escondida, orante e de reparação de nossas irmãs que ali vivem e que são, para toda a nossa Obra, fonte de graças e de proteção; e pela nossa Vila Franciscana (e posteriormente a nossa Fratérnitas fr. Manoel) que tem sido o lugar de cuidar da vida daqueles que cuidam de vidas.

Terminemos com as efusivas palavras de Santo Agostinho: Desperta, ó homem: por ti Deus Se fez homem. Desperta, tu que dormes, levanta-te de entre os mortos e Cristo te iluminará. Por ti, repito, Deus Se fez homem. Terias morrido para sempre, se Ele não nascesse no tempo. Nunca terias sido liberto da carne do pecado, se Ele não assumisse a semelhança da carne do pecado. Estarias condenado à miséria eterna, se não fosse a sua grande misericórdia. Não terias voltado à vida, se Ele não descesse ao encontro da tua morte. Terias sucumbido, se Ele não viesse em teu auxílio. Estarias perdido sem remédio, se Ele não viesse salvar-te.

Um santo Advento e um Feliz Natal,

Maceió, AL, 20 de novembro de 2019

Pe. Gilson Sobreiro, pjc

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