QUARESMA 2020

Amados irmãos e irmãs no Carisma,

Com o Tempo da Quaresma começa mais um ciclo do Ano Litúrgico (o calendário do Céu como piedosamente chamamos): o Ciclo Pascal. O primeiro, o Ciclo do Natal, organizou-se em torno do Mistério da Encarnação do Nosso Salvador, em seguida, entramos na “primeira parte” do Tempo Comum período em que Nosso Senhor dá início às suas primeiras pregações, e agora entramos no Ciclo Pascal que se constituirá em torno do Mistério da Sua Paixão, Morte e Ressureição. 

Os ciclos do Natal e da Páscoa trazem, dentro de si, um providencial período de preparação que culminará com as celebrações magnas da Missa da Vigília do Natal e da Missa da Vigília de Páscoa. Em ambos os períodos de preparação, o objetivo é o mesmo: Preparar-nos de forma mais imediata para celebrar os Santos Mistérios e de forma mais remota para o encontro definitivo com o Senhor. 

 O Período Quaresmal se inicia com a Quarta-Feira de Cinzas. A imposição das cinzas é um dos costumes mais antigos da Igreja. Nesse dia o bispo abençoava os cilícios e as cinzas e impunha-os aos catecúmenos (adultos que se preparavam para o Batismo) e a alguns penitentes que durante quarenta dias expiavam as suas faltas para assim poderem reconciliar-se sacramentalmente na Quinta-Feira Santa. 

A titulo de curiosidade, o cilício não era um cinto feito de metal com vários aros pontiagudos como hoje conhecemos, era uma túnica feita de couro, mais ou menos parecida com aquela que João Batista usava. O termo vem do latim que quer dizer exatamente isso - cilicinus - feito de pelo de cabra. 

No século XI, a imposição das cinzas, que até então era feita apenas aos catecúmenos e a alguns penitentes, foi prescrita para toda a Igreja pelo Papa Urbano II. 

A imposição das cinzas quer recordar publicamente da nossa condição criatural de mortais, da nossa condição de pecadores e da nossa condição de peregrinos nesse mundo, contudo, quer nos recordar, também, de que somos chamados a uma vida nova e imortal em Cristo Jesus, como diz a Oração de Benção das Cinzas: Deus de infinita bondade, que não desejais a morte do pecador, mas a sua conversão, ouvi misericordiosamente as nossas súplicas e dignai-Vos abençoar estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, para que, reconhecendo que somos pó da terra e à terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Como você tem recebido as cinzas anualmente? Com quais disposições você deseja recebê-las esse ano? A imposição das cinzas te faz recordar a finitude dessa vida ou você é do tipo que foge de qualquer reflexão acerca da possibilidade da morte e vive como se jamais fosse deixar essa vida? Em meio a um mundo que vive exageradamente apegado a essa vida como está a tua confiança na Vida Eterna?

A Quaresma é um período de quarenta dias de penitência e de combate espiritual como nos diz a Oração da Coleta da Missa de Quarta-Feira de Cinza: Concedei-nos, Senhor, a graça de começar com santo jejum este tempo da Quaresma, para que, no combate contra o espírito do mal, sejamos fortalecidos com o auxílio da temperança. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.  Interessante notar, conforme está escrito na oração, que o objetivo da Quaresma não é nos enfraquecer, mas, nos fortalecer com o auxilio da virtude da temperança. Mas, o que é a temperança? 

Uma ligeira consulta ao dicionário nos mostra que a temperança é a qualidade ou a virtude de quem é moderado, comedido. Também conhecida como “sobriedade” ou “austeridade”, é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Ela assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade (CIC 1809).

É a virtude que nos ajuda a ordenar as coisas para a finalidade para as quais foram criadas. Tomemos a comida como exemplo, ela é um meio para a nossa sobrevivência, mas, se for considerada um “bem” em si mesma se tornará um vicio que causará sofrimento, provocará danos e poderá levar a morte. 

O que nesse momento se encontra desordenado na tua vida? A comida? A bebida? O sexo? O jogo? O sono? Os sentimentos? O tempo gasto nas redes sociais? Etc. Permite-te fazer um honesto Exame de Consciência e busca a Confissão e a Direção Espiritual. Recorda-te do que disse o Livro do Eclesiástico, 18,30: Não te deixes levar pelas tuas más inclinações e refreia os teus apetites. Peçamos ao bom Deus que Ele nos auxilie com a virtude da temperança no combate contra tudo aquilo que em nós é excesso e desordem. 

Ainda sobre a Quaresma. 

O número quarenta é relevante dado a sua simbologia bíblica. É um tempo, quase sempre de provação, antes da manifestação da complacência de Deus.

Passado quarenta dias e quarenta noites de dilúvio as águas elevam as a arca que Deus tinha mandado Noé construir (cf. Gn. 7,12). Antes de entrar na terra Prometida o povo escolhido vagou durante quarenta anos pelo deserto (cf. Dt 8,2). Moisés só recebeu as Tábuas da Lei após ter jejuado quarenta dias no Monte Sinai (cf. Ex 24, 12-17). Antes de ser confortado e orientado por Deus Elias andou errante durante quarenta dias pelo deserto, tentando escapar de Jezabel (cf. 1 Reis 19, 1-8). O próprio Jesus, antes de ser consolado pelos Anjos, passou quarenta dias e quarenta noites no deserto, rezando e jejuando (cf. Mt 4,2-11).

A “provação” que a Igreja nos propõe nesse tempo é a penitência. A Igreja convida todos os cristãos, indistintamente, a responder ao preceito divino da penitência com algum ato voluntário, além das renúncias impostas pelo peso da vida cotidiana (Constituição Apostólica Paenitemini, 3, do Papa Paulo VI). É por isso que a cada ano nos penitenciamos através da abstinência de certos alimentos (jejum) e de determinadas práticas como ouvir musica ou diminuir o tempo passado nas redes sociais, nos propomos a praticar com mais esmero a esmola e a nos dedicarmos melhor à vida de oração. Sem algum tipo de penitência, não há observância quaresmal. 

Faz a experiência esse ano de viver a penitência que a Fraternidade te propõe ou o teu Confessor, ou Diretor Espiritual, ou você mesmo que conhecendo tuas debilidades e necessidades, sabe do quanto te faria bem se impor determinada penitência. Proponho-te, porém, fazê-la na certeza de que Deus agirá em teu favor te concedendo forças para superar um vício, destreza para corrigir um defeito, sabedoria para conduzir a vida, até mesmo um milagre para o teu impossível. Assim como Ele foi complacente para com Noé, Moisés, Elias, Israel, etc. Ele também será para contigo.

Quanto à esmola, todas as vezes que você a praticar Deus, também, agirá com complacência: Assim diz o Senhor: Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: 'Eis-me aqui' (Is 58, 7-9). Toda semana estamos nas ruas, nas cadeias, nos hospitais, nos meretrícios, nas aldeias... Assistimos aos doentes, dependentes, abandonados... Diariamente alimentamos centenas de irmãos e irmãs que se encontram em situação de rua, de drogadição, de imigração... Acolhemos aqueles e aquelas que para nós se tornaram “Filhos(as) Prediletos(as). Então, o que está faltando para você receber a promessa que o Senhor te fez?   

Quanto à oração, o mesmo acontecerá: Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos e os seus ouvidos estão atentos à sua oração (1Pd 3.12). O que não falta na nossa Fraternidade é oração. Cada um, de acordo com a natureza de sua vocação e do ministério que exerce, sabe que deve ter uma vida sacramental, que deve reservar diariamente um tempo para o encontro com a Palavra, para contemplar os mistérios do Santo Rosário... Semanalmente, em praticamente todas as nossas missões, há a adoração ao Sacratíssimo Corpo de Jesus, grupo de oração, intercessão, estudo da Palavra... Ao dizer isso, estou te convidando a voltar a tua vida de intimidade com o Senhor. Volta a falar com Ele, pois, Ele te escuta: Eu amo o Senhor, porque ele ouviu a voz de minha súplica, porque inclinou para mim os seus ouvidos no dia em que o invoquei (Sl 114,1-2).

Não nos esqueçamos de que os atos externos de penitência devem conduzir sempre a conversão do coração, pois do contrário, serão apenas atos cavos: Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus (Jl 2,13); Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim (Is 29, 13). 

A conversão se revela através do testemunho de sermos no mundo aquilo que acreditamos. Se você acredita em Jesus de Nazaré então tuas escolhas precisam se assemelhar as d’Ele. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gl 2,20).

A jaculatória que nos acompanhará durante essa Quaresma será: Ecce lignum crucis; veníte, adorémus! Eis o lenho da Cruz; vinde, adoremos! Se pronuncia étche linhum crutchis. venite adoremus. 

Desejo a todos uma abençoada, penitente e convertida Quaresma.

Vosso fundador,

Pe. Gilson Sobreiro, pjc

 

São Paulo, 17 de fevereiro de 2020.

  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube

Copyright © 2019 Fraternidade O Caminho | Design e Desenvolvimento Creative Brands